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Jorge e Alice convidam um casal amigo para jantar. Mas a mulher chega sózinha, desfeita. Acaba de saber que o avião onde vinha o seu marido se despenhou no mar. Acompanhando as notícias com a potencial viúva para saber se o seu marido faz ou não parte dos sobreviventes, o casal recebe a notícia de que foi o grande e único vencedor do jackpot do euromilhões de sexta-feira 13. Mas têm de esconder a sua euforia. É de prever um sem número de reviravoltas durante este tão movimentado serão... 
Esta comédia de sucesso já foi representada em teatros de todo mundo :  Paris, Avignon, Madrid, New-York, Los Angeles, Miami...

Traduction en portugais de Vendredi 13
ISBN 978-2-37705-071-0
Décembre 2016
63 pages ; 18 x 12 cm ; broché. Prix TTC : 9,90 €

 

COMPRAR O LIVRO

***

Leia o começo di livro

 

Uma sala de estar de um apartamento burguês de esquerda. Uma pintura vanguardista no chão, encostada à parede do fundo. O resto já encaixotado. Num canto, uma árvore de Natal enfeitada. Ninguém em cena. O telefone toca e ouve-se uma mensagem automática de atendimento:

Pedro (voz off) – Bom dia! Ligou para Pedro e Cristina. Neste momento não podemos atender. Estamos retidos na Autoridade Tributária por causa de uma fraude fiscal. Mas pode deixar uma mensagem depois do sinal sonoro. Nós ligaremos logo que nos libertarem. Deixem a vossa mensagem depois do sinal sonoro…

Sinal sonoro seguido da mensagem de atendimento:

Jorge (voz off) – Sim, olá, daqui fala Jorge. Tudo bem? Mas que idiota que sou, tu não podes responder… Pronto, é só para dizer que a combinação para esta noite se mantem, mas…

Pedro chega com um saco do Minipreço numa mão e um de pão na outra. Atrapalhado, não se dá ao trabalho de desligar o telefone e ouve o resto da mensagem:

Jorge (voz off) - ...Devemos chegar por volta das 8 e meia. O avião aterra no Terminal 3. É só o tempo de saltar para o autocarro, deixar a mala em casa, meter-me no carro com a Alice... Ah, a propósito, obrigadinho pela mala. Aproveito para a devolver. Até já! E não façam cerimónia, está bem? É um jantar de amigos…

Pedro vai por os sacos na cozinha e regressa com uma bag in box de vinho corrente na mão. Despe a gabardina e tira um jarro do armário. Abre a box e enche o jarro. Chega Cristina.

Cristina – Olá! Tudo bem?

Pedro O Jorge telefonou, estão um pouco atrasados.

Cristina – Ainda bem, porque nós também estamos…

Ela despe o casaco.

Cristina – A casa está gelada, não achas? Consegue estar mais frio que lá fora...

Pedro Desliguei o aquecimento. É suporto fazermos economias, não é?

Cristina dá-se conta do que ele está a fazer.

Cristina (espantada) – O que é que tu estás a fazer?

Pedro O que estás a ver, a por o vinho num jarro. É preciso deixá-lo respirar um pouco antes de o beber. Parece que é melhor.

Cristina – Não valia a pena investir num reserva especial… Se tivesse que escolher preferiria economizar no vinho e não no aquecimento…

Pedro É um vinho corrente. Não me perguntes de que região é. Mas não é estrangeiro. Um euro e oitenta o litro, no Minipreço… não pode ser grande coisa… Promoção de Natal...

Cristina – Então porque é que o estás a por num jarro?

Pedro (irónico) – Foi o escanção do Minipreço que me aconselhou a fazer isso. Para que este precioso néctar solte todos os seus aromas de frutos vermelhos e baunilha. Com um ligeiro gosto de uva… (Sério de novo) O que achas? Preferes que ponhamos a bag in box na mesa?

Cristina – Tudo bem...

Pedro E não acho que oxigenar esta zurrapa lhe faça mal. O vinho corrente é como a água da torneira. É melhor decantá-la antes de a beber. Para os gases tóxicos terem tempo de se evaporar e os metais pesados de se depositarem no fundo.

Cristina – Fizeste as compras?

Pedro Comprei uma empada de alcachofras na loja de congelados ali da esquina e é só descongelá-la.

Cristina – Uma empada de alcachofras?

Pedro Também estava em promoção… Com uma salada…

Cristina – Bom, vou preparar os aperitivos.

Cristina começa a tirar os copos do armário

Cristina – Passaste no Centro de Emprego?

Pedro Sim...

Cristina – E então?

Pedro Propuseram-me um estágio…

 Cristina – Um estágio?

Pedro Num restaurador

Cristina - Boa... Era o que tu querias, não era?

Pedro - Um restaurador de quadros...

Cristina – De quadros? Mas tu tens o curso de Hotelaria!

Pedro – Centro de Emprego, sabes como é... Devem ter feito confusão.

Cristina – Mas tu disseste-lhes que eras chefe de cozinha? E o que é que te responderam?

Pedro Parece que agora temos que ser polivalentes…

Cristina – Mas que disparate. Antes de acabares o curso estavas num hotel e fazias parte de uma equipa de cozinheiros. O que é que vais poder enquadrar num restaurador de quadros?

Pedro - Quadros... Mais fica tranquila que aqui em casa serei sempre o teu cozinheiro.

Cristina – És mesmo pateta. E foste lá?

Pedro (virando-se para o quadro) – E aproveitei para avaliar a nossa tela...

Cristina – Ai sim… Esta bosta pela qual pagaste há dez anos uma fortuna ao teu amigo de Belas Artes…

Pedro Foi mesmo depois da sua primeira tentativa de suicídio… Foi para o desenrascar. E pensei que o quadro se iria forçosamente valorizar…

Cristina – Se ao menos ele nos permitisse pagar o aquecimento… E então o teu restaurador avaliou esta obra-prima em quanto?

Pedro Umas centenas de euros…

Cristina – Tu pagaste 1.500 por ele!

Pedro Não, mas já viste como a cotação de Van Gogh explodiu logo após a sua morte?

Cristina – Resta-nos então esperar que o teu génio da pintura seja bem-sucedido na próxima vez que tentar suicidar-se, antes que nós morramos de frio… Sim, porque não podemos sonhar que o valor suba porque ele simplesmente não o tem…

Pedro O problema da pintura moderna é esse mesmo…

Cristina – Espero que o Jorge nos pague os 1.000 euros que generosamente lhe emprestaste. Pelo menos dava para pagar o aluguer de um armazém para guardarmos os móveis enquanto esperamos pela casa da Câmara que o teu amigo vereador te prometeu… A propósito, falaste com ele?

Pedro Com quem?

Cristina – Com o Jorge! Dos nossos 1.000 euros!

Pedro Pergunto-me se será o momento apropriado… A vida também não está fácil para ele, sabes. A Portugal Telecom mudou o call center para a Faro. Já viste? Para Faro! Ele era Director de Recursos Humanos perto do Marquês… E não é a Alice, com o ordenado de professora a meio tempo… 

Cristina – Pois sim, mas eu faço três meios tempos! E mesmo assim não dá para pagar as contas!

Pedro Ok, falo com ele esta noite...

Toca o telefone.

Cristina – Devem ser eles… (Ela levanta o auscultador) Está lá… Olá Alice, tudo bem? Ok, não há problema, nós esperamos… Até já... (Ela desliga) Era a Alice...

Pedro Sim, não sei porquê, mas assim que atendeste e disseste: Olá Alice, pensei logo que devia ser ela…

Cristina – O avião do Jorge está atrasado por isso ela vem sozinha de carro…

Pedro E ele?

Cristina – Ela deixou-lhe uma mensagem no telemóvel para ele vir directamente para cá. Acho que vamos começar com os aperitivos sem ele…

Pedro Mas que ideia a dele de apanhar o avião para vir de Faro…

Cristina – Sim… Sobretudo porque vai aterrar em Tires. Mas agora, com as low cost uma ida e volta a Faro pode custar menos do que um bilhete de metropolitano…

Pedro aproxima-se dela e dá-lhe um abraço.

Pedro Vá lá, não penses nisso, vamos safar-nos.

Cristina – Claro... E enquanto estivermos os dois juntos não nos pode acontecer nada de grave, verdade?

Pedro Prefiro beber um vinho corrente contigo do que degustar um Barca Velha com outra pessoa.

Cristina – Sinto que a nossa sorte vai mudar. Estamos quase no Natal. Além disso, hoje é sexta-feira 13, não é?

Pedro Se calhar até ganhamos o euromilhões.

Cristina – Mas nós não jogámos…

Pedro Enganas-te, eu fiz uma aposta quando fomos ver a tua Mãe a Évora… Escolhi os números com base na minha inscrição no Centro de Emprego…

Cristina – De repente fiquei muito mais tranquila…

Beijam-se.

Pedro E a Alice? Estará a caminho?

Cristina – Há um quarto de hora que anda às voltas para encontrar um lugar…

Pedro Pois... Aqui no bairro e a esta hora…

Cristina – Se eles tivessem um Smart como nós em vez do Mercedes 4x4, estacionavam com muito mais facilidade…

Pedro – Mas eles têm dois filhos. E o Smart só tem dois lugares.

Cristina – Podiam muito bem contentar-se com um Twingo ! Pensava que tinham problemas de dinheiro…

Pedro – O mais importante é que ela aprenda a estacionar num espaço apertado entre dois carros…

Cristina começa a tirar as garrafas. Tocam à porta.

Cristina – Vês como tu és mauzinho… Ela até conseguiu estacionar… Vais abrir?

Pedro vai abrir a porta.

Pedro Olá Alice! O que é que te aconteceu? Estás branca como a cal da parede! Dir-se-ia que acabaste de ver um morto…

Alice chega com Pedro. Ela segura numa garrafa de champanhe e tem realmente um ar abatido.

Alice (chorando) – Não podias ter dito melhor…

Cristina aproxima-se, perturbada.

Cristina – Mas o que é que se passa, Alice?

Alice Preparava-me para desligar o rádio e sair do carro. Estava na hora do noticiário. O avião onde o Jorge vinha despenhou-se no mar…

Pedro No mar?

Cristina – Tens a certeza que foi o avião dele?

Pedro Vinha de Faro...

Alice Era um low cost, com uma escala em Casablanca. Eles referiram o número do voo e o nome da companhia. Não há qualquer dúvida. O avião desapareceu por cima do Estreito de Gibraltar…

Alice chora convulsivamente. Pedro e Cristina trocam um olhar destroçado.

Cristina – Ouve, talvez o encontrem…

Pedro O Estreito de Gibraltar, não é assim tão grande…

Cristina – O piloto até pode ter conseguido pousar o avião no mar…

Pedro Entre dois petroleiros…

Cristina – Isso já aconteceu…

Pedro Não muitas vezes, mas já aconteceu…

Alice – Vocês acreditam mesmo nisso...?

Cristina – O que é que eles disseram na telefonia? Disseram que não havia sobreviventes?

Alice Ainda não sabem...

Cristina – Estás a ver!

Pedro E ainda por cima o avião é o meio de transporte mais seguro de todos! Segundo as estatísticas, quando apanhas um avião, a probabilidade de lá morrer é de um para um milhão. Quase o mesmo que ganhares o euromilhões, por isso estás a ver…

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