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António acaba de herdar de uma tia, da qual ele desconhecia a existência, um apartamento maravilhoso num dos melhores prédios pombalinos de Lisboa. Acabou de dar a volta ao apartamento com a sua companheira Clara. Mas os segredos de família são como as mentiras que têm perna curta…

Traduction de Héritages à tous les étages

ISBN 978-2-37705-067-3

Décembre 2016

77 pages ; 18 x 12 cm ; broché. Prix TTC : 9,90 €

 

 

 

 

 

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***

Leia o começo do livro

 

Uma sala de visitas com uma imponente janela que dá para uma grande varanda de onde se vê o Tejo. Do outro lado um corredor por onde se chega à entrada. Os móveis e a decoração são velhos e kitch. Na parede principal um imponente quadro representando Salazar ainda novo.

António (fora de cena) – Espera que tenho que desligar o alarme. Se não o fizer em 30 segundos vamos acordar todo o prédio e mandam-nos prender como se fossemos ladrões… Bolas qual é o código… Ai… bolas… É o 1234.

Chega Clara. Entra na sala, olha à sua volta e exclama, num misto de admiração e susto.

Clara – Uau!

António (entrando na sala) – Tinha-te prevenido que tínhamos que remodelar o apartamento.

Clara – Falas como um agente imobiliário. Lembra-te que és o proprietário.

António – Ainda me custa a acreditar… Mas espera… Vem aqui ver.

Vão os dois juntos para a janela para contemplar a vista. Desta vez Clara fica maravilhada.

Clara – Uau!

António – Vais ver… Se nos debruçarmos um bocado na varanda até conseguimos ver o Rossio.

Clara – Pois, isto vai mudar a nossa vida. Lá de casa só conseguimos ver o cemitério.

António aproxima-se de Clara, abraça-a.

António – Então? Sempre concordas em passar hoje a tua primeira noite comigo neste apartamento?

Clara – Tudo isto é realmente muito excitante… Mas quero primeiro ver a cama da tua bisavó antes de te responder.

António – Não é a minha bisavó… É a minha tia-avó Lazarina.

Clara – A tua tia Lazarina? Mas que raio de nome… Isso é apelido?

António – Não, era o nome de baptismo da minha tia, irmã mais velha da minha avó.

Clara – A mãe do teu pai?

António – Da minha mãe, ao que parece.

Clara dá mais uma volta à sala.

Clara – E tu nunca a viste.

António – Eu nem sabia que a minha avó tinha uma irmã.

Clara – É de doidos.

António – O quê?

Clara – Que os teus pais nunca te tenham falado dessa tia Lazarina.

António – Pois é.

Clara – E agora herdas a casa dela.

António – Parece que sim, ela não tinha filhos. E como os meus pais já morreram o notário disse que eu era o único herdeiro.

Clara – Mesmo assim é triste, não achas? Durante todos estes anos ela vivia aqui, a dois quarteirões da editora onde trabalhas e tu soubeste da morte dela por um telefonema do notário…

António – Nem isso… quando recebi a carta do notário ela já tinha sido enterrada.

Clara (pegando numa moldura que está sobre a cómoda) – É ela?

António – Sim… Imagino que seja.

Clara – Era bem bonita… quando jovem.

António – Até era.

Clara – É só isso que sabes dizer?

António – O quê?

Clara – Sei lá… Ela já morreu… Nunca a vais conhecer… Só te resta uma fotografia…

António – E o apartamento!

Clara – E não te afecta saber que a tua tia morreu?

António – Ah sim, garanto-te que me afecta.

Clara – O quê?

António – Para te ser franco, tenho a impressão de ter ganho a lotaria.

Clara (voltando a por a fotografia no seu lugar) – É claro… e não vamos ter saudades do nosso T1 da Amadora.

António – Claro que não… Já viste que se acabam os comboios e posso ir a pé para o trabalho.

Clara – E eu também… O liceu nem fica longe.

António – Não teremos que pagar mais rendas. Na baixa de Lisboa. Um apartamento com uma bela varanda, no último andar, com elevador e tudo num belo prédio pombalino.

Clara – Pronto… Lá estás tu outra vez a falar como um agente imobiliário.

António – Até conseguiram fazer um parque de estacionamento no jardim das traseiras.

Clara – Mas nós nem carro temos…

António – Deves estar a brincar… Fazes ideia por quanto podemos alugar um estacionamento nesta zona?

Clara – Não, por quanto?

António – Não sei dizer-te exactamente, mas pelo menos por metade do meu ordenado. Ai isso com certeza.

Clara – Então podes alugar o estacionamento e passar a meio tempo. Assim poderás começar a escrever o teu primeiro romance. Não vais passar o resto da tua vida a publicar os livros dos outros.

António – Mas primeiro é preciso que encontre um assunto.

Clara – Olha, podias escrever a história desta misteriosa avó.

António – Tia-avó!

Clara – Uma mulher que devia ser quase centenária, que devia ter para aí uns vinte anos na segunda guerra mundial. Deve dar assunto para um romance.

Clara dá uma volta inspecionando mais uma vez a sala.

António – É verdade que o ar está pesado…

Clara – Eu diria mesmo um pouco assustador. Dir-se-ia que o fantasma de Lazarina anda pelo apartamento.

António – Se calhar é melhor chamar um exorcista para afastar as almas e fantasmas antes de nos mudarmos para cá.

Clara – Achas?

António – Começaremos por despachar todas estas velharias e depois pintaremos a casa toda.

Clara – Realmente a casa é um bocado sombria.

António (aproximando-se novamente da janela) – Sim… mas olha-me só esta vista… maravilhosa! E todos estes telhados que se vêm daqui…

Clara – E atrás de cada janela homens e mulheres com as suas histórias, os seus destinos.

António – É verdade… É muito romântico.

Clara  – Lisboa…

António – Uma das mais belas cidades do mundo.

Clara – E das mais românticas.

António – Centenas de apartamentos como este. Milhares de pessoas e milhares de histórias que estão a ser escritas.

Clara – Sim… Consegues imaginar que neste momento haverá pessoas a fazer pedidos de casamento?

António – E outros em plena discussão sobre o divórcio.

Clara – Estão a nascer bebés um pouco por todo o lado.

António – E velhos a finarem-se como a tia Lazarina.

Clara – Algumas pessoas devem estar a lavar a loiça.

António – E outros a fazer amor…

E começam a abraçar-se. São interrompidos pela campainha da porta.

Clara – Quem é que poderá ser?

António – Sei lá… Não conheço ninguém neste prédio.

Clara – Será o fantasma da tia Lazarina?

António – Eu vou lá!

Clara – Queres que vá contigo?

António – Deixa estar… mas se eu não voltar dentro de cinco minutos chamas um exorcista, ok?

António sai e Clara fica parada à frente do quadro e, intrigada, examina-o.

António (off) – Ah sim… Não, de maneira alguma… Por favor entre.

António regressa seguido por Graziela.

Graziela – Não queria incomodá-los. Mas foi a porteira, a Dona Idalina, que me disse que o tinha visto subir com a sua mulher. (Dando-se conta de que Clara está na sala) Não sei se é sua mulher… Boa tarde menina.

Clara – Boa tarde minha senhora.

António – Clara, apresento-te a nossa vizinha Graziela Forte que é a administradora deste condomínio.

Graziela (com ar de circunstância) – Meu caro Senhor, em nome de todos os condóminos do prédio que tenho a honra de representar, por favor aceitem as nossas mais sinceras condolências.

António – Muito obrigado, mas sabe…

Graziela (interrompendo) – A sua tia era uma pessoa excepcional. Com o seu feito, é preciso dizê-lo. Mas encantadora. Todos os vizinhos eram muito ligados a Lazarina.

António – Fico muito feliz por sabê-lo.

Graziela – Para todos nós Lazarina era bem mais do que uma vizinha. Todos a ajudávamos quando era preciso, às vezes íamos às compras, ocupávamo-nos de coisas administrativas…

Clara – Ai sim?

Graziela – Resumindo, todos fazíamos os possíveis para ela se sentir menos sozinha. Recebia muito poucas visitas, como deve saber. Todos os dias a rodeávamos da nossa afeição. E ela retribuía muito bem, pode crer.

António – Ai sim… está… Está bem.

Graziela – Para Lazarina os vizinhos eram uma espécie de família. Aliás eu ignorava que ela tivesse outra… Pelo menos ela nunca nos falou disso.

António – Isso não me espanta… O que é verdade é que eu conhecia muito mal a minha tia Lazarina.

Graziela – Ah… Efectivamente não me lembro de o ter visto no enterro.

António – Para lhe dizer francamente eu…

Clara, já irritada com a conversa, intervém.

Clara – Penso que a senhora não veio apenas para conversar e nós não a queremos reter demasiado tempo. Deve ter alguma coisa para nos perguntar, não? Entre vizinhos… Um pezinho de salsa, sal, fósforos, um saca-rolhas.

António – Ou um quebra-nozes…

Graziela – Quanto ao saca-rolhas não andou longe… É um pouco embaraçoso… Devido às circunstâncias…

António – Desembuche.

Graziela (tossindo) – Desculpem… É como se tivesse uma rolha na garganta…

António – Quer beber alguma coisa?

Clara (lançando um olhar de reprovação ao companheiro) – Não sei se há alguma coisa que lhe possamos oferecer.

Graziela – Basta-me uma copo de água, obrigada.

Clara – Eu nem sei onde fica o frigorífico.

Graziela – Não se preocupe, posso beber água da torneira. Aqui no bairro ela é muito boa, hão-de ver. Não vão precisar de carregar garrafões de água mineral. Sobretudo quando se mora no último andar, como os senhores. Mesmo com o elevador… Há uma torneira na cozinha: a segunda porta à esquerda no corredor. E há copos no armário que fica mesmo em cima.

Clara sai para ir buscar o copo de água, um pouco chateada.

Graziela – Pronto, vou-lhe dizer o que me trouxe aqui… É que hoje é a festa dos vizinhos e desde que esta festa existe a sua tia sempre insistiu para que fosse organizada na sua casa.

António – A festa dos vizinhos...? Então era isso…

Graziela – Uma tradição, se quiser. Sem dúvida por causa do terraço ser tão grande e ter uma vista tão bonita sobre a cidade e o Tejo.

António – Claro…

Graziela – É preciso dizer que este é o apartamento mais bonito do prédio. E como Lazarina estava sozinha, sempre era uma companhia.

António – Mas, infelizmente, ela morreu, não é…

Graziela – Claro que sim… mas ficaria com certeza muito feliz de nos saber todos reunidos aqui uma última vez.

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